
Pais drogados induzem filhos
Que os amigos influenciam na experimentação das drogas e que a atração pelo proibido é grande, já se sabe. Mas uma pesquisa realizada este ano mostra que a influência do meio familiar pode ser muito mais decisiva do que se imagina, na formação do viciado. Maus exemplos dos pais podem ser determinantes para transformar alguém em dependente químico, mostra um estudo coordenado pelo psicólogo clínico Ricardo Sánchez-Huesca, especializado em tratamento de drogados no México.
– A pesquisa mostra que 70% dos dependentes químicos entrevistados assistiram a mau trato do pai para com a mãe ou sofreram maus-tratos por parte dos pais. Já entre os que não usam drogas, o percentual dos que não vivenciaram violência doméstica baixa para 20% – pondera Huesca, no estudo Detecção precoce de fatores de risco para o consumo de substâncias ilícitas.
Huesca, que é um dos diretores de uma rede de Centros de Integração Juvenil (laboratório preventivo contra drogas e crimes, do Ministério da Saúde mexicano), fará a palestra de abertura do I Congresso Internacional Crack e outras Drogas, em Porto Alegre, entre 7 e 9 deste mês.
O trabalho coordenado por Huesca na Cidade do México ouviu 40 dependentes químicos e 40 pessoas que não usam drogas – todas da mesma faixa etária e da mesma região, para equilibrar a amostragem.
O estudo constata também que 50% dos consumidores de drogas pesquisados relatam que seus pais ou irmãos mais velhos usavam drogas. Já entre os não-consumidores de drogas, o percentual dos que narram ter familiares envolvidos com uso de substâncias ilícitas é zero.
Huesca acredita que hábitos familiares de consumo de álcool e drogas são “sumamente relevantes” para a prevenção e tratamento. Para a prevenção, porque significa que o tratamento de adultos viciados em drogas pode evitar a reprodução – por modelo comportamental – dessa conduta em seus filhos.
Quanto ao tratamento, reforça a proposta de uma maior eficácia terapêutica quando se inclui o modelo de tratamento de toda a família e não apenas do drogado.
Um terceiro eixo da pesquisa mostra que 23% dos usuários de drogas enfrentam dificuldades escolares. Sobretudo, provocada pela conduta rebelde, inquieta e desobediente das regras, o que resulta em expulsão das aulas. Já entre os não-usuários, apenas 5% relatam dificuldades na escola.
Nas conclusões da pesquisa, Huesca ressalta que muitos dependentes de drogas dizem que, durante a infância, foram deixados ao cuidado de diferentes pessoas. Todos encararam isso como indiferença, abandono ou rechaço por parte dos pais.
Qual a saída? O principal conselho de Huesca é que famílias sejam tratadas, preventivamente, para que seus filhos não se tornem viciados.
O estudo do mexicano não surpreende uma das maiores autoridades em drogadição no Brasil, o psiquiatra gaúcho Flávio Pechansky, doutor em Medicina e diretor do Centro de Pesquisa em Álcool e Drogas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
– Essa relação entre o dependente de drogas e sua família é muito conhecida. Famílias com estruturas disfuncionais tendem a reproduzir esse ambiente esfacelado, o que acaba passando para os filhos. É a influência do upbringing, como os ingleses definem, a forma como tu és criado – pondera Pechansky.
O encontro acontece no Salão de Atos da UFRGS e será promovido pela Associação do Ministério Público, com apoio do Grupo RBS.
O que mostra a pesquisa mexicana:
- 70% dos dependentes de drogas relatam que seus pais eram violentos com as mães ou batiam neles, quando crianças. Dos não-usuários de drogas, apenas 20% relataram isso.
- 80% dos dependentes dizem que álcool era comum nas suas casas, na infância. Entre os não-viciados, 70% dizem isso. O detalhe é que, entre os usuários de drogas pesquisados, 50% dizem que os pais usavam drogas ilegais. Dos não-viciados, nenhum diz isso.
- Entre os dependentes, 23% relataram ter enfrentado dificuldades escolares após decidir usar drogas. Sobretudo por atos de rebeldia. Já entre os não-usuários de drogas, apenas 5% relataram ter o mesmo problema.
Informe-se
Uma das armas mais eficientes no combate às drogas é a informação. Visite o site www.cracknempensar.com.br
Fonte: Jornal Pioneiro, Caxias do Sul, 02 de julho de 2010